quarta-feira, 30 de junho de 2010

QUANDO EU MORRER, QUERO ESTAR VIVO!


Por Marson Guedes

Devia ter bem uns 80 anos, não menos do que 75. As rugas denunciavam a avançada faixa etária. Mas não foram os sinais de terceira para quarta idade que chamaram minha atenção. Foi que ela estava viva. "Quando morrer, quero estar vivo", foi a frase que esta senhora evocou em mim.

É uma frase de efeito, pois eu e você sabemos que, para morrer, é preciso estar vivo. Óbvio, redundante. Mas pense bem, e verá que é possível estar biologicamente vivo e morto por dentro. São as pessoas com olhar embotado, sorriso sem brilho, arremedos de si, gente levada de roldão pelos destratos da vida. É possível também estar vivo por fora e por dentro. É o caso desta senhora vistosa que encontrei.
Eu a encontrei num velório.

É, velório. O que poderia ser mais contrastante do que uma senhora já pela quarta idade com porte de gente viva no velório de um senhor que estava na quarta idade quando se foi? Eu notaria imediatamente essa senhora em qualquer lugar alegre, mas ali era um grito silencioso de que, pelo menos em um ser humano, a vida por dentro venceu as intempéries da vida e chegou bem longe, tão vívida quanto os olhos dela.
Será que eu chegarei tão longe? E, se chegar, chegarei à quarta idade vivo, lúcido, olhos curiosos e sorriso brilhante? Não sei, mas quero.

Ouvi que ela sempre saía para dançar, duas ou mais vezes por semana. Soube que ela enterrou três maridos. Imaginei que ela tinha decidido viver, encabrestar a vida e não o contrário. Era o que me dizia, ainda que de longe, seu cabelo bem branquinho e muito bem arrumado. Era cabelo de cabeleireiro, garantiu minha esposa. A roupa clara sem desrespeitar o ambiente, a postura ereta sem petulância, a saia decorada sem ser gritante, apenas um pouco abaixo do joelho. O sapato claro, meio salto, com aberturas de sandália, completava um conjunto sóbrio, mas vivo.

Esta senhora ocupou meus pensamentos durante alguns dias, a imagem dela permanecerá por bem mais tempo na minha mente. Tive o impulso de isolar o fator determinante de sua vida viva, mas me dei conta que não teria a chance de muitas e demoradas conversas. Optei por pedir aos céus a bênção de não deixar a vida escorregar por entre meus dedos.

É que, quando eu morrer, quero estar vivo.

Marson Guedes é edtor do blog homônimo escreveu o texto que o @oemergente gostaria de escrever.

Fonte: Ari indica

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